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Plano Piloto

Uma ideia revolucionária, que marcaria para sempre a história do urbanismo contemporâneo. Ousada, pioneira, mas ao mesmo tempo de uma simplicidade surpreendente, apresentada na forma de um memorial descritivo e singelos esboços em lápis.

O projeto do arquiteto e urbanista Lucio Costa, que derrotou outros 25 perante um júri internacional, em março de 1957, não era apenas o traçado de uma cidade voltada para a administração pública e que expressava "a grandeza de uma vontade nacional", como determinava o edital do concurso. Ele sugeria uma nova concepção de vida, baseada no resgate de valores essenciais ao bem-estar coletivo. Uma cidade-parque em que homem e natureza convivessem de forma harmoniosa e em que os laços comunitários fossem fortalecidos. Uma capital arrojada e moderna, com um sistema viário inovador, pontuada por monumentos de forte impacto cívico e arquitetônico.

A concepção do Plano Piloto nasceu do gesto de quem assinala uma cruz. Um símbolo de conquista, de quem toma posse de um território. Adaptado à topografia local e ao escoamento das águas, um dos eixos dessa cruz, o Norte-Sul, seria arqueado e daria ao desenho final a noção de um pássaro – ou, como diria mais tarde Lucio Costa, a sugestão de uma libélula, uma borboleta, um arco e flecha...

Entre os princípios básicos do projeto estão a setorização urbana por atividades determinadas e uma técnica rodoviária que elimina cruzamentos. A cidade gira em torno de dois grandes troncos de circulação, o Eixo Monumental, que vai de Leste a Oeste, e o Eixo Rodoviário-Residencial, que vai de Norte a Sul e é cortado transversalmente pelas vias locais.

Com exceção da área central, onde prevalecem edifícios mais altos e mais aglomerados, o Plano Piloto se caracteriza pela paisagem horizontalizada, pela predominância de espaços livres e pela grande amplitude visual. São quatro escalas: a residencial, a monumental, a gregária e a bucólica.

A ESCALA RESIDENCIAL, construída ao longo do Eixo Rodoviário, traduz um conceito completamente novo de moradia, com superquadras de apartamentos cercadas de verde, edifícios de gabarito baixo suspensos sobre pilotis e unidades de vizinhança que estimulam a convivência, com seus comércios locais, praças, escolas e outros equipamentos comunitários. O espaço para casas geminadas ficou mais afastado do eixo central, na parte Oeste.

A ESCALA MONUMENTAL abriga, no eixo do mesmo nome, os centros de decisões políticas e administrativas do país e do Distrito Federal. Abriga também a arquitetura genial de Oscar Niemeyer, com suas curvas femininas e vãos audaciosos.

A ESCALA GREGÁRIA, construída em torno da Plataforma Rodoviária, no coração da cidade, inclui comércio, agências bancárias, consultórios, escritórios, hotéis e centros de diversões.

A ESCALA BUCÓLICA permeia e integra as outras três escalas, com extensas faixas gramadas, canteiros ornamentais, parques, áreas arborizadas e de lazer. Brasília é conhecida no mundo como uma cidade-parque, onde o verde e os amplos espaços livres estão integrados de forma harmoniosa ao dia a dia urbano, emoldurando e integrando todas as áreas do Plano Piloto.

O projeto de Lucio Costa, planejado para 500 mil habitantes, também previu, entre outras áreas, os Setores Culturais, o Centro Esportivo, a Cidade Universitária, o Jardim Botânico, o Setor Militar e os quartéis, as zonas destinadas à armazenagem e abastecimento, às garagens de viação urbana e às pequenas indústrias locais.

Mas nem tudo saiu como previsto pelo urbanista. A nova capital acabou construída mais perto do Lago Paranoá, para evitar a ocupação indevida entre a Praça dos Três Poderes, e a orla do lago e os Setores de Habitação Individual Sul e Norte (hoje transformadas em outras regiões administrativas) tiveram de ocupar a outra margem do lago.

Para atender à demanda crescente por templos e colégios particulares, foram planejados os chamados Setores de Grandes Áreas, a Leste e a Oeste. Com isso, várias outras mudanças precisaram ser feitas. O Setor de Mansões surgiu a partir de iniciativa de Israel Pinheiro, os Ministérios precisaram ganhar prédios anexos e foram criadas novas áreas residenciais mais populares, como o Cruzeiro e a Octogonal. As casas isoladas, de maior padrão econômico, também proliferaram no Lago Norte e no Lago Sul.

Com o crescimento da cidade, a área central teve de ser ampliada. Vieram os setores Hospitalar, de Rádio e Televisão, de Autarquias e a Praça dos Tribunais. Nas unidades de Vizinhança, boa parte das entrequadras ainda está vazia. Muitas áreas tiveram sua destinação original desvirtuada. A invasão de áreas públicas é um problema sério, assim como a pressão por estacionamento e o fluxo crescente do trânsito. A privatização da orla do Lago Paranoá e a multiplicação dos clubes esportivos comprometeram o acesso público às margens do lago.

Mesmo assim, 50 anos depois, o espírito do Plano Piloto de Lucio Costa continua bem vivo e considerado, desde 1987, como Patrimônio Cultural da Humanidade, permanecendo como um presente, para os brasileiros e para o mundo.